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Mostrando postagens com o rótulo LEITURA ZARATUSTRA

Do ler e escrever

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De tudo quanto se escreve, agrada-me o que alguém escreve como o próprio sangue. Escreve com sangue; e aprenderás que sangue é espírito. Não é quase possível compreender o sangue estranho; eu destesto todos os leitores ociosos. Quem conhece o leitor, já nada faz para o leitor. Mais um século de leitores, e o próprio espírito terá mau odor. Que todo mundo tenha o direito de ler e aprender a ler, eis o que com o tempo vos desgosta; não só de escrever, mas de pensar. Outrora o espírito era Deus, mas depois se fez homem; agora se fez plebe. Quem com sangue e em máximas escreve não quer ser lido, mas guardado de memória. Nas montanhas, o mais curto caminho vai se cimo a cimo; mas é mister pernas largas. É mister que aforismos sejam cimos, e aqueles a quem falas, homens altos e robustos. Um ar leve e puro, o perigo próximo e o espírito cheio  de uma alegre malignidade, eis o que se harmoniza bem. Gosto de me cercar de duendes, porque sou valente. A cora...

Do pálido criminoso

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“Vós não quereis matar, juízes e sacrificadores, enquanto a besta não inclinar a cabeça? Vede: o pálido criminoso inclinou a cabeça; em seus olhos se expressa o grande desespero. ´ Meu Eu é o que deve ser superado; meu Eu me inspira o profundo desprezo do homem´  - eis o que diz esse olhar. Seu mais alto momento foi aquele em que julgou a si mesmo. Não deixeis descer dessa cima para cair em sua baixeza! Para quem tanto sofre por si, não há mais salvação que a morte rápida. Vosso homicídio, ó juízes, deve ser compaixão e não vingança. E ao matar, cuidai de justificar a sua própria vida! Não vos basta reconciliar-vos com o que matais. Que vossa tristeza seja o amor ao Além-Homem; assim justificais vossa super-vivência! Dizei ´ inimigo ´ e não ´ malvado ´; dizei ´ enfermo ´ e não ´ infame ´; dizei ´ insensato ´ e não ´ pecador ´. E tu, juiz vermelho, se dissesses em voz alta o que fizeste em pensamento, todo o mundo gritaria: ´ Fora com essa i...

Das alegrias e das paixões

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Irmão, quando tens virtude, e essa virtude é tua, não a tens em comum com ninguém. Na verdade, tu queres chamá-la por seu nome, e acariciá-la; queres puxá-la pela orelha, e divertir-te com ela. Vês! Tu agora dás-lhe um nome que é comum a ti e ao teu povo, e te fizeste povo e rebanho em tuas relações com tua virtude. Farias melhor em dizer: “inexpressável e sem nome é o que constitui o tormento e a doçura de minha alma, e o que é também a fome de minhas entranhas”. Que tua virtude seja demasiado alta para a familiaridade das denominações; e se necessitas falar dela, não te envergonhes de balbuciar. Fala e balbucia assim: “Este é o meu bem, o que amo: assim é como me agrada plenamente; é só assim como eu quero o bem. Não o quero como mandamento de um deus, nem como uma lei e uma necessidade humana; não há de ser para mim um guia para regiões transcendentes nem para paraísos. O que amo é minha virtude terrena, que pouco tem a ver com a sabedoria e men...

Dos que desprezam o corpo *

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Aos  que desprezam o corpo quero dizer-lhes a minha opinião. Não devem mudar de preceito, nem de doutrina, mas, simplesmente, desfazerem-se do corpo, o que lhes tornará mudos. “Eu sou corpo e alma” – assim fala a criança. – Por que se há de falar como as crianças? Mas o homem desperto, o sábio, diz: “Todo eu sou corpo, e nada mais;  a alma não é mais que um nome para chamar algo do corpo”. O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um só sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento de teu corpo é também sua pequena  razão, irmão, a que chamas “espírito” : um pequeno instrumento, e brinquedo de tua grande razão. “Eu” dizes tu, e te orgulhas desta palavra. Mas o maior – e é o que tu não queres crer – é o teu corpo e a sua grande razão. Ele não diz “Eu”, mas procede como Eu. O que sentem os sentidos, o que o espírito conhece, nunca tem em si o seu fim. Mas os sentidos e o espírito quereriam convencer-te de que...

Dos Trasmundanos

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Outrora, também Zaratustra lançou sua ilusão para além do homem, como todos os trasmundanos. A obra de um deus sofredor e atormentado me parecia então o mundo. Sonho me aparecia então o mundo, e ficção de um deus; colorida fumaça ante os olhos de um divino insatisfeito.Bem e mal e prazer e dor e tu e eu – eram, para mim, colorida fumaça ante olhos criadores. O criador quis desviar o olhar de si mesmo – então criou o mundo. É ébrio prazer, para o sofredor desviar o olhar do seu sofrer e perder a si próprio.Ébrio prazer e perda de si próprio me parecia o mundo outrora. Este mundo, o eternamente imperfeito, imagem de uma eterna contradição, e imagem imperfeita – um ébrio prazer para seu imperfeito criador: - assim me parecia outrora o mundo. Assim, também eu lancei, outrora, minha ilusão para além do homem, como todos os trasmundanos. Para além dos homens, de verdade? Oh, irmãos, esse deus que eu criei era obra e loucura de homens, como todos os deuses! ...

Das cátedras da virtude

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Das cátedras da virtude Louvaram para Zaratustra um sábio que falava muito bem do sono e da virtude: por isso bastante reverenciado e recompensado, diziam, e todos os jovens sentavam perante sua cátedra. Foi até ele Zaratustra, e com todos os jovens se sentou perante sua cátedra. E assim falou o sábio: Respeito e pudor ante o sono! Isso em primeiro lugar! E evitar todos os que dormem mal e passam a noite acordados! Mesmo o ladrão tem pudor durante o sono: sempre anda furtivamente pela noite. Sem pudor, no entanto, é o guarda-noturno, que despudoradamente carrega sua corneta. Não é arte pequena dormir: requer passar o dia inteiro acordados! Dez vezes é preciso superar-se durante o dia: isso gera um bom cansaço e é papoula para a alma. Dez vezes é preciso reconciliar-se  consigo mesmo; pois superação é amargura, e dorme mal o não reconciliado. Dez verdades tens que achar durante o dia: senão buscas ainda verdades durante a noite, tua alma p...

Os discursos de Zaratustra - Primeira parte

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Das Três metamorfoses     Três metamorfoses do espírito menciono para vós: de como o espírito se torna camelo, o camelo se torna leão e o leão, por fim, criança.      Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o forte, resistente espírito em que habita a reverencia: sua força requer o pesado, o mais pesado.     O que é pesado? Assim pergunta o espírito resistente, e se ajoelha, como um camelo, e quer ser bem carregado.    O que é mais pesado, ó heróis? Pergunta o espírito resistente, para que eu tome sobre mim e me alegre de minha força.    Não é isso: rebaixar-se, a fim de machucar sua altivez? Fazer brilhar sua tolice, para zombar de sua sabedoria? Ou é isso: deixar nossa causa quando ela festeja seu triunfo? Subir em altos montes, afim de tentar o tentador? Ou é isso: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e pela verdade padecer fome na alma. Ou é isso: estar doente e mandar...